quinta-feira, 6 de abril de 2017

A TRANSSEXUALIDADE DA VOZ

Minha voz sumiu durante um ano quando me descobri transsexual. Fiquei enlouquecida. Imagina o que é para um cantor lírico que estudou durante uns dezesseis anos de sua vida técnica vocal,  perder a voz? Não me matei porque sou narcisista demais  para ter coragem pra fazer isso comigo. Mas entrei em frenesi procurando como resolver meu problema vocal. Apelei primeiro todo tipo de técnica, até mesmo as que não originavam do Bel'Canto, numa tentativa desesperada para recuperar minha voz.

Quando a técnica falou, eu apelei para a macumba mesmo. Fiquei doida de vez porque já estavam se fazendo seis meses que eu não conseguia cantar um único chiado sequer. Quando tentava cantar, minhas cordas vocais doíam tanto, que parecia que estavam arrebentando e alguém estava passando pimenta nelas.

Me isolei de todo mundo durante um ano, não queria que ninguém soubesse que eu estava sem voz, dentro de sala, evitava cantar, e comecei a desenvolver melhor minha comunicação com meus alunos para que não houvesse nenhuma necessidade de eu ter que cantar para demonstrar a produção de qualquer som cantado que fosse.

Fiquei um ano ficando dentro de casa quase todos os dias, pois sempre saio e bebo, adoro cantar para as pessoas, quando elas querem ouvir, claro. E como eu iria cantar sem voz? Por sorte, ainda possuía minha voz falada, e podia falar com meus amigos e alunos. Até que dia resolvi procurar alguém da umbanda para ver se conseguia alguma informação, ou mesmo algum trabalho que pudesse me ajudar a recuperar minha voz cantada.

Assim que chegamos no local onde uma amigo estava levando-me para conversar com uma mulher, que segundo ele, era uma grande mãe de santo, fomos surpreendidos por ela logo no portão, convidando-nos para irmos em outro local porque quem queria falar comigo não era ela, e sim uma entidade, que havia lhe dito para que levasse-me imediatamente para sua casa. Ela parecia-me assustada e pálida com aquela situação.

Eu olhei para meu amigo e apertei sua mão, na época, eu ainda não havia assumido minha espiritualidade, então, não conseguia discernir muita coisa, e também evitava para não me colocar novamente naquele redemoinho de manifestações metafísicas que tinha vivido durante muito tempo desde de criança, e que a muito custo, tinha conseguido me isolar delas, e podido estudar para seguir minha carreira de cantor erudito, na época. Ele simplesmente disse-me para que ficasse tranquila pois a mulher era poderosa espiritualmente.

Quando adentramos na casa da entidade, eu pude sentir que uma energia muito estranha estava ali, ela já pegou-me e rodou-me já abençoando-me como mulher, e dizendo que não tivesse medo porque minha voz iria voltar assim que a mulher em mim se revelasse por completa. Disse-me também que como homem eu nunca cantaria e soltaria a voz que possuo, mas que como mulher eu cantaria com um som monstruoso. E que eu me tornaria mais mulher a cada dia, e que isso iria doer, mas iria transformar a mim e a minha voz.

Ela não me conhecia nem meu amigo passou qualquer informação a ela sobre minha situação. Ele é muito mais desconfiado do que eu. Por isso, dentro de mim, eu sabia exatamente o que significava aquelas palavras. Toda uma personalidade estava morrendo, e com ela sua voz, e outra estava nascendo e com ela estava vindo sua própria voz. De alguma forma aquelas palavras trouxeram alívio ao meu coração. Voltamos para casa felizes por aquilo, e olha que nunca imaginei ir num terreiro para saber alguma coisa sobre minha voz.

A partir dali, eu passei a descansar de mim mesma e de minha voz, e desisti de minha carreira de cantor e parei também de cantar, perdi o encanto e prazer pelo meu canto, e dediquei somente ao ensino da técnica, o que acabou me ajudando a aprofundar-me bastante no conhecimento e domínio da Técnica Alexander e Bel'Canto. Vi o horizonte enorme que estava abrindo-se para mim como professora de canto, e o abracei seu medo ou remorso, por ter aberto mão do sonho que fez me sair das entranhas da mata amazônica.

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Quem sou eu

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Nasci em Parintins no Amazonas. Vivi no meio da mata onde enfrentei todos os perigos que pessoas  da cidade nem imaginam que existe. Aprendi tarrafiar. Pescar piranha preta e vermelha. Vi meu cachorro ser despedaçado em três pedaços por um tamanduá bandeira de três metros de altura. Cacei veado vermelho e roxo. Tirei jacaré açú da malhadeira. Arranquei tatu do buraco. Arranquei mandioca grande da terra sem quebrar. Cacei cutia. Paca. Comi macaco prego. Onça. Quati. Porco espinho. Fiquei encurralada por um bando de queixada. Comi papagaio em tempo de fome. Peguei juruti na arapuca feita de pau. Tomei água de cipó d'água. Apanhei com pedaço de lenha do fogão de barro. Roubei ovo de inambú açú. Peguei mauari na malhadeira de mica. Mergulhão. Garça branca e morena. Andei sobre o matupá. Vi anhingal andar no rio. Fugi de caba tatu. Levei ferrada de caba de igreja. Fui mordida por piranha vermelha que levou um pedaço do meu dedo. Consegui fugir e me tornar uma das melhores professoras de canto do país. E outras coisas que só caboclo sabe...

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